Não, você não possui um cérebro reptiliano

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Uma famosa teoria afirma que, ao longo do processo evolutivo, o cérebro humano teve três estágios diferentes: uma origem reptiliana, passando pelos mamíferos primitivos, até chegar em nossos ancestrais primatas. Esses “três cérebros”, realizariam diferentes funções de forma independente, competindo entre si.

Segundo a teoria, a camada mais profunda e primitiva do cérebro, chamada de Cérebro Reptiliano, opera os reflexos e funções instintivas como as funções vitais do corpo e os comportamentos sexuais.

O cérebro do réptil é o responsável por comportamentos de agressão, domínio, territorialidade e exibição ritual. Sua estrutura envolve o tronco cerebral e o cerebelo. É nosso animal interior impulsivo, com tendências violentas, que busca proteção, defesa e poder. As modalidades esportivas de luta e competição, por exemplo, seriam um estímulo direto ao cérebro reptiliano.

A segunda camada surgiu a partir de nossos ancestrais mamíferos, chamada de Sistema Límbico. O cérebro do mamífero primitivo que lida com a vinculação familiar e a criação de filhos, capaz de gravar memórias de comportamentos que produziram experiências positivas e negativas, sendo o principal responsável pelas emoções. Uma estrutura que envolve o hipocampo, a amígdala e o hipotálamo e onde são realizados os julgamentos que afetam nosso comportamento.

A terceira camada é uma estrutura evolutivamente moderna, que culminou no atual cérebro humano, chamada de Neocórtex. É responsável pelo desenvolvimento da linguagem, pensamento abstrato, imaginação e pensamento consciente.

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O neocórtex realiza funções cognitivas de alto nível, fazendo comparações e buscando novos dados ao processar as informações oriundas dos sentidos. Ou seja, se um consumidor pensar demais antes de comprar, seu neocórtex estará em ação, racionalizando a tomada de decisão.

Ilustração das camadas propostas por MacLean com o cérebro reptiliano
Simplificação didática das camadas propostas pela Teoria do Cérebro Trino de MacLean. Ilustração: Arthur Paredes

Surgimento

A Teoria do Cérebro Trino foi formulada em 1968 pelo médico e neurocientista Paul D. MacLean, e disseminada mundialmente pelo astrônomo Carl Sagan, em seu livro Os Dragões do Éden de 1977. No livro, Sagan menciona que:

A partir de experiências como as realizadas com macacos-de-cheiro, MacLean concebeu um modelo cativante da estrutura e da evolução cerebral que ele denomina o cérebro trino. “Somos obrigados”, diz ele, “a nos olhar e a olhar o mundo através dos olhos de três mentalidades bastante diferentes, duas das quais carecem do poder da fala”. O cérebro humano, sustenta MacLean, “compreende três computadores biológicos interligados”, cada um com “sua própria inteligência especial, sua própria subjetividade, seu próprio sentido de tempo e espaço, sua própria memória, suas funções motoras e outras”. Cada cérebro corresponde a uma etapa evolutiva importante separada. Os três cérebros são sabidamente distintos, em termos neuranatômicos e funcionais, e contêm distribuições acentuadamente diferentes dos neuroquímicos dopamina e colinesterase.

Vendo a grande aceitação de sua teoria na psiquiatria, na educação e pelo público em geral, posteriormente, em 1990 MacLean produziu a obra The Triune Brain in Evolution: Role in Paleocerebral Functions detalhando ainda mais sua teoria.

Por que você não possui um cérebro reptiliano

Mesmo se tornado tão famosa, é uma teoria considerada incorreta pela neurociência moderna.

No artigo “Você não tem cérebro de lagarto”, Daniel Toker explica que a seleção natural tem de trabalhar com o que já existe. Portanto, o cérebro foi adaptado ao longo da evolução.

As estruturas biológicas que conhecemos hoje são meras versões modificadas de estruturas primitivas. Em termos anatômicos, o córtex cerebral não se encontra sobreposto sobre um sistema límbico primitivo, transmitindo informações através de camadas independentes. Os sistemas no cérebro funcionam em série, integrados através de circuitos, não tão bem delimitados.

Toker afirma que o neocórtex dos mamíferos não é uma estrutura completamente nova como MacLean sugeriu, mas sim uma modificação do córtex reptiliano. Por exemplo, até hoje possuímos circuitos remanescentes no cérebro para o controle de brânquias, um resquício de nosso passado evolutivo e uma evidência dessa adaptação biológica. Os gânglios basais também são estruturas presentes nos peixes com mandíbulas, anteriores ao surgimento dos répteis.

Evolutivamente falando, a maioria das inovações ocorreram nos anfíbios enquanto eles se adaptavam à vida terrestre. As estruturas límbicas, ambas arqui e paleo estruturas, antecedem o suposto Complexo-R proposto por MacLean.

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Artigo de 1979 da revista Science referenciando a teoria de MacLean. Crédito: American Association for the Advancement of Science

O psicólogo cognitivo Steven Pinker, reforça o problema da Teoria do Cérebro Trino em seu livro Como a mente funciona:

Um problema da teoria trina é que as forças da evolução não amontoam simplesmente camadas sobre um alicerce inalterado. A seleção natural tem de trabalhar com o que já existe, mas pode modificar o que encontra. A maioria das partes do corpo humano proveio de mamíferos primitivos e, antes deles, de répteis primitivos, mas essas partes foram substancialmente modificadas para ajustar-se a características do modo de viver humano, como a postura ereta. Embora nossos corpos carreguem vestígios do passado, eles possuem poucas partes que eram inalteráveis e foram adaptadas apenas a necessidades de espécies mais antigas. Até o apêndice atualmente encontra um uso no sistema imunológico. Os circuitos para as emoções também não foram deixados intactos.

A neurocientista brasileira Suzana Herculano-Houzel, em seu livro A vantagem humana: Como nosso cérebro se tornou superpoderoso, argumenta que:

As descobertas cada vez mais numerosas de fósseis de saropsídeos (o nome apropriado dos dinossauros), alguns deles emplumados, deixaram claro que os lagartos, crocodilos e aves modernos são parentes próximos, todos agora considerados répteis (inclusive as aves), ao passo que os mamíferos modernos evoluíram separadamente, e muito antes, a partir de um grupo irmão nos princípios da vida aminiótica. Portanto, os mamíferos nunca foram répteis ou aves em um passado evolutivo; o cérebro dos mamíferos é no mínimo tão antigo quanto o das aves e de outros répteis, ou talvez até mais antigo – ele apenas tem um histórico evolutivo diferente. […] Ora, se os mamíferos não descendem de seres semelhantes a répteis, não podem possuir um cérebro que fora construído com a adição de camadas por cima de um cérebro reptiliano. Comparar o cérebro dos mamíferos com o dos répteis, e pressupor que um possui novas estruturas sobrepostas às do outro, é tão absurdo quanto olhar para dois primos humanos vivos e esperar que um deles tenha nascido do outro.

O marketing abraça a teoria (e não quer largar)

Até os dias de hoje vemos a Teoria do Cérebro Trino sendo propagada como um modelo didático para explicar o funcionamento do cérebro humano.

Entretanto, é uma teoria que é considerada apenas fora do campo da neurociência, e infelizmente é vendida erroneamente como uma das bases do Neuromarketing (ou como alguns preferem, neurociência aplicada ao marketing).

E vemos por toda parte palestrantes, coaches, cursos de neurovendas e afins e profissionais do marketing insistindo em uma teoria ultrapassada e que induz a graves erros científicos, distorcendo a forma como hoje compreendemos o comportamento humano. Dificilmente você encontrará um livro ou artigo neurocientífico moderno que utilize o modelo de MacLean para explicar o complexo funcionamento do órgão mais complexo da biologia.

Claramente a teoria se espalhou como um meme, devido ao seu modelo simples e didático para explicar importantes aspectos cognitivos do cérebro humano. Assim como aconteceu com os famosos “gatilhos mentais“, ideias equivocadas continuam sendo propagadas sem o devido aprofundamento.

Nada disso tira o mérito do trabalho de MacLean, que teve grande importância nos estudos subsequentes, inclusive foi quem introduziu o termo “sistema límbico” na literatura neurocientífica. Sua teoria foi formulada em um contexto muito diferente do atual, onde não haviam equipamentos avançados de neuroimagem como o fMRI, por exemplo.

Boa parte do seu trabalho também pode ter sido influenciado pela psicanálise, muito forte à época, onde MacLean pode ter buscado um análogo fisiológico que se encaixasse com o modelo proposto por Freud do Id, Ego e Superego.

Portanto, chegou a hora (ou já passou da hora) de romper com mais esse mito da neurociência: compartilhe este artigo com seus amigos, alunos, e nas redes sociais.

Finalizo este post com meu muito obrigado a Paul D. MacLean († 2007), que deixou um importante legado para a neurociência moderna e que realizou um trabalho desafiador em uma época onde a neurociência ainda começava a engatinhar. Afinal, ciência é isso: revisar, atualizar, comprovar teorias, sempre!

Por Arthur Paredes, publicitário e autor do livro “Profundamente: neuromarketing e comportamento de consumo”.


Referências

  • Barret, Lisa Feldman. How emotions are made: the secret life of the brain. Boston: Mariner Books, 2017.
  • Cesario, Joseph & Johnson, David & Eisthen, Heather. (2019). Your Brain Is Not an Onion with a Tiny Reptile Inside.  Disponível em: <https://researchgate.net/publication/338154360_Your_Brain_Is_Not_an_Onion_with_a_Tiny_Reptile_Inside>,
  • Gerald A. Cory, Jr., Russel Gardner Jr. The evolutionary neuroethology of Paul MacLean: convergences and frontiers. Greenwood Publishing Group, 2002.
  • Herculano-Houzel, Suzana. A vantagem humana: como nosso cérebro se tornou superpoderoso. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
  • Pinker, Steven. Como a mente funciona; tradução Laura Teixeita Motta. 3ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
  • Sagan, Carl. Os Dragões do Éden. 1ª edição. Portugal: Gradiva, 1997.
  • Sapolsky, Robert M. Behave: the biology of humans at our best and worst. Londres: Penguin Books, 2018.
  • Science Magazine. Paul MacLean and the triune brain. 08 jun. 1979. Disponível em: <https://science.sciencemag.org/content/204/4397/1066/tab-article-info>.
  • Toker, Daniel. You don’t have a lizard brain, 11 abr. 2018. Disponível em: <https://danieltoker.com/2018/04/11/you-dont-have-a-lizard-brain/>.

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